Demissão de Cristóvão Borges mostra falta de rumo da diretoria do Corinthians


Cristóvão Borges pode ter feito escolhas erradas. Em 18 jogos por vezes escalou mal, substituiu mal, não fez uma boa leitura dos jogos e, principalmente, não aparentou ter a gana, a vontade de vencer que um técnico de um clube como o Corinthians precisa ter. A Fiel Torcida não perdoa a falta de vibração, não perdoa a tranquilidade zen que o baiano sempre demonstrou. Isso não é um defeito do profissional, apenas parte da personalidade dele. Porém uma coisa não se pode dizer: que ele seja culpado pelo momento de falta de rumo que vive o Corinthians. Ele chegou e partiu sem ter conseguido demonstrar a própria capacidade profissional. E a diretoria do Corinthians foi covarde ao demiti-lo nas circunstâncias em que o fez. Em menos de três meses é impossível analisar o trabalho de um técnico de futebol. Sobretudo em um clube que desmontou o próprio departamento de futebol e o elenco profissional. 

O Timão vendeu quase dois times em menos de dois anos. Foram sucessivas saídas de jogadores, uma hemorragia que parecia não estancar. Nomes de Seleção Brasileira como Gil, Felipe, Jádson, Ralf, Renato Augusto, Guerrero, Alexandre Pato, Vágner Love e Elias, só para citar alguns. Além dos atletas, saíram profissionais importantíssimos do departamento de futebol como o preparador físico Fábio Mahseredjian, o gerente de futebol Edu Gaspar, o auxiliar técnico Cléber Xavier, além do próprio técnico Tite. Nas categorias de base também houve saídas de jogadores e profissionais de comissão técnica. O clube também perdeu analistas de desempenho. Ou seja, uma debandada geral.

Não que o clube não tenha contratado jogadores. Trouxe alguns nomes interessantes como Marlone, Marquinhos Gabriel, Balbuena, Guilherme e Giovanni Augusto. Todos eles, porém, bem longe da confiabilidade daqueles que saíram. Os novos corintianos tem potencial, mas ainda não tem bagagem anterior para dar ao torcedor a confiança necessária para vestirem o manto alvinegro. O diretor de futebol Eduardo Ferreira, em entrevista recente, afirmou que alguns jogadores ainda não renderam o que a diretoria espera deles. Esta declaração nos dá uma boa ideia de como a cúpula corintiana anda perdida. Em um time como o Corinthians não se pode montar um time repleto de promessas. É preciso ter jogadores que resolvam, que não sintam o peso da camisa centenária.

Num cenário apocalíptico como este foi que chegou Cristóvão Borges, com a enorme responsabilidade de começar um novo trabalho dentro desta realidade do "bom e barato"- afinal de contas, Roberto de Andrade não se cansa de dizer que anda dando prioridade ao caixa do clube. A própria escolha do treinador foi repleta de polêmica. Contudo, mesmo desconhecido da torcida e sem nenhum trabalho vencedor, o técnico foi respaldado pela diretoria desde o começo. Diziam que iriam mantê-lo pelo menos até o final do ano, mas não foi o que ocorreu. Bastaram algumas derrotas e pressão da torcida para que Roberto de Andrade abrisse as pernas e mandasse Cristóvão passear. Desde 2010 o Corinthians não demitia um técnico com tão pouco tempo de trabalho. O último foi Adílson Batista. 

Roberto de Andrade não manteve a palavra. Não deu condições para que Cristóvão trabalhasse. Na primeira dificuldade se desfez do técnico mesmo sabendo que ele era o menos culpado pelo fraco desempenho do time. Não é demais lembrar que o mesmo elenco (com Felipe e Elias) não passou das semifinais do Campeonato Paulista e das oitavas na Libertadores. Portanto, o time é fraco. Causa preocupação que o clube esteja entregue a uma diretoria de pulso fraco como esta. O presidente do Corinthians tem de estar preparado para pressões, para ser xingado nas arquibancadas, para respaldar o trabalho que ele mesmo afirmava que estava sendo bem feito. Caso contrário não serve para comandar um clube bicampeão mundial. Deve abandonar o cargo e voltar pra casa.

O final de temporada do Timão deve ser melancólico. Terá sorte se conseguir uma vaga na Copa Libertadores 2017 e não deve ir muito longe na Copa do Brasil. Tem jogadores e estrutura tanto para um quanto para outro. O problema é que há atletas sentindo a pressão e uma diretoria cambaleante como esta não inspira confiança nem nos próprios jogadores, ainda que eles não o digam publicamente. A derrota para o Palmeiras (que foi normal e merecida) parece ter dado um ponto final no ano corintiano e iniciado o planejamento para 2017. Os únicos que podem mudar esta situação antes do final deste ano são os jogadores. Se fizerem isso, será pelos próprios méritos, não por conta da competência de quem manda no Corinthians atualmente.

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