A Idade de Ouro de Neymar

Já escutava falar sobre Neymar desde que ele chegou ao Santos, em 2003. Naquela época, as conversas de bastidores davam conta de que o Peixe tinha um garoto de 11 anos nas categorias de base que era realmente muito diferente dos demais e com potencial para se tornar um grande craque brasileiro. De tempos em tempos se ouve uns papos desse tipo. A grande maioria não vira nada além de eternas promessas. Mas não foi o caso do garoto nascido em Mogi das Cruzes-SP, que iniciou a vida futebolística na modesta Portuguesa Santista.

Neymar profissionalizou-se em 2009 no Santos e pouco a pouco foi provando ao Brasil que seria um grande astro do futebol mundial. Com o passar do tempo, o talento dele já não cabia mais nos gramados brasileiros. Ele já era indiscutível, seus golaços, jogadas inacreditáveis, feitos assombrosos não cabiam mais na camisa do Santos. Ainda que o Peixe seja historicamente um celeiro de craques, Neymar precisava alçar vôos mais altos e figurar no centro dos holofotes mundiais. E rumou para a Catalunha para jogar com a camisa grená do Barcelona. 

O futebol europeu fez muito bem a Neymar. No Barça ele encontrou um ambiente favorável e um grupo de trabalho que deu o suporte necessário para que pudesse aprimorar o rico talento. Faltava ainda o sucesso no selecionado nacional. Ainda que a importância e habilidade dele fosse indiscutível para o time brasileiro, ficava aquela sensação de que nosso principal jogador não tinha mostrado tudo o que podia. Assim como aconteceu com outros grandes craques do passado em algum momento das respectivas passagens vestindo a amarelinha.

Neymar tem a personalidade dos grandes vencedores do futebol mundial. Sabe ganhar, sabe perder, aprende tanto nas vitórias quanto nas derrotas. Esportivamente falando, ele tem tudo para ser o melhor jogador do mundo em algum tempo. Mas isso não significa que seja perfeito. A perfeição não existe. Algumas análises pegam pesado em cima de declarações, gestos, aparições ou outras polêmicas extracampo do craque. Mas a minha análise se limita ao futebol. Afinal, como dizia um velho filósofo da redonda: não quero o Neymar para casar com a minha filha, mas quero ele no meu time. 

Há pelo menos três anos, desde que passou a utilizar a mítica camisa dez da Seleção Brasileira, Neymar é cobrado e cotado como o principal jogador do país. Acontece que não havia um time em volta dele. A estratégia das últimas equipes brasileiras parecia aquela do "salvador da pátria": Manda a bola pro Neymar e deixa que ele resolve. Só que no esporte bretão, que é coletivo, uma andorinha só não faz verão. Foi assim até o histórico vexame dos 7 a 1 na Copa do Mundo de 2014, a maior vergonha da Seleção Brasileira em todos os tempos. 

Num time mal montado, mal convocado e mal escalado pelo ultrapassado Luiz Felipe Scolari, Neymar era o único de quem poderia se esperar alguma coisa diferente do que aconteceu. Por ironia do destino, ele não estava presente no fatídico duelo contra a Alemanha. Não por omissão, mas por contusão. Mesmo que estivesse em campo e jogasse o melhor jogo de sua vida, não seria capaz de evitar a eliminação do Brasil naquele 8 de junho. A Alemanha tinha mais time e estava muito mais preparada psicológicamente que o nosso time.

Os Jogos Olímpicos do Rio 2016 foram, na minha ótica, o ponto de virada para Neymar. As intensas críticas após os dois primeiros jogos se transformaram no combustível para que o time brasileiro se recuperasse e conquistasse um título inédito para a Seleção Brasileira. E o craque do Barcelona, inegavelmente, teve papel fundamental na conquista. Ali Neymar tirou das costas um peso de toneladas de pressão e cobranças, deu a resposta esperada, trouxe o que muitos não achavam possível. Ali ele se tornou um jogador vencedor com o Brasil.

De volta ao time principal, agora sob o comando de Tite, Neymar tem encontrado mais espaço para amadurecer o seu futebol com o time canarinho. Ao contrário de Felipão, principalmente, mas também de Dunga, o atual comandante do Brasil é um técnico moderno, antenado, humilde e vencedor. É quase uma rara unanimidade no comando da Seleção. Não há quem ouse dizer que o ex-treinador do Corinthians não tenha preparo para dirigir o Brasil. Ao invés dos catadões de um passado recente, a Seleção Brasileira de hoje busca um padrão tático coletivo. Compactação, marcação pressão, valorização da posse de bola, inversões táticas, intensidade e concentração constante. 

Neymar agora não é mais o único de quem se espera alguma coisa. Não é mais o "salvador da pátria". Mas ainda é o craque do time. A ótica do trabalho de Tite é que mudou o paradigma. O Brasil busca se tornar um time, um grupo, uma equipe coesa. Essa visão diferente ajuda com que o talento individual apareça em favor do time. Com 24 anos, Neymar está no momento certo para começar a trilhar o caminho que o levará ao seu auge na carreira futebolística. A "idade de ouro" do craque do Brasil começou com o apito final que deu o título no futebol das olimpíadas ao Brasil. Só Deus sabe quando é que vai terminar e até onde Neymar irá chegar. 

Comentários