Porque a Rede Globo não gosta do torcedor de futebol

Em quase 30 anos acompanhando o futebol brasileiro, nunca havia visto uma cena tão horrorosa quanto aquela protagonizada pela Polícia Militar do Rio de Janeiro, nas arquibancadas do Maracanã, no último domingo. Com o frágil pretexto de que estaria "identificando" elementos que se envolveram em uma briga com PM´s fora do estádio, os agentes do Estado fizeram todos os torcedores do Corinthians passarem por uma série de humilhações verbais, agressões gratuitas, hostilização e pressão psicológica. Ao final do espetáculo de barbárie, obrigaram todos os homens presentes a retirarem as camisas e ficarem aguardando a averiguação. Uma cena absolutamente injustificável e lamentável.

Não importa qual fosse o pretexto desta "ação policial", nada, repito, NADA justifica este episódio, um dos mais tristes que acompanhei em toda a minha trajetória acompanhando e cobrindo o futebol brasileiro. Ali havia gente que pagou ingresso e foi ao Rio de Janeiro ver uma partida de futebol. Essas pessoas não poderiam, em hipótese alguma, serem submetidas ao tratamento abusivo cometido pela PM carioca. As denúncias de torturas, ameaças e agressões pipocam na internet e ninguém foi punido. O que se discute aqui não é a culpabilidade dos 31 que ainda estão presos no Rio, acusados de envolvimento na suposta briga. Afinal de contas, a justiça julgará as responsabilidades de cada um. O absurdo maior reside no fato de que dezenas de pessoas que nada tiveram a ver com este fato também passaram por humilhações e foram tratadas como criminosas pela polícia do Rio de Janeiro.

Há décadas acontecem confrontos, violência, vandalismo e mortes em caravanas de torcidas visitantes em jogos pelo Brasil. Isso é fato conhecido por todos os que estão envolvidos no futebol, portanto o que aconteceu não foi novidade. Outra coisa que não é novidade é a falta de preparo das polícias estaduais no combate à violência relacionada ao futebol. Falta inteligência, estratégia, consciência de direitos civis e, principalmente, conhecimento sobre o universo do futebol. Continuam incorrendo no mesmo erro: tratar o torcedor de futebol, organizado ou não, como se trata vagabundos desocupados. Quem vai ao estádio em qualquer lugar do Brasil e senta em uma arquibancada sabe do que estou falando. A meu ver, polícia militar não deve fazer segurança de eventos esportivos e sim atuar como apoio da segurança privada. Mas esta é outra discussão (e longa).

Chegamos então na parte mais importante deste artigo: a imprensa esportiva. Refiro-me principalmente (mas não unicamente) à Rede Globo, detentora principal dos direitos de transmissão dos principais campeonatos nacionais desde sempre. Os jornalistas da Globo não gostam de torcedor. Não ouvem o torcedor, não levam a sério o que pensa o torcedor. A eles pouco importa quanto sacrifício fez o torcedor para comprar o ingresso, se tem um lugar confortável para ver a partida, se tem onde estacionar o carro ou facilidade no transporte público. Não estão nem aí se o torcedor foi bem tratado durante o espetáculo ou não. A Globo marca as partidas de futebol durante a semana para quase dez horas da noite e não dá a mínima para as condições ou a segurança do torcedor que tem de voltar para casa após a meia noite.

Quando se trata de torcidas organizadas, então, o descaramento na parcialidade jornalística chega às raias da canalhice. Não é preciso fazer parte de uma torcida organizada para saber que essas instituições não são compostas somente por bandidos e vagabundos. Essa visão generalizada e irreal foi construída com base em décadas de cobertura que a Globo tem feito sobre as organizadas. Em quase 100% dos casos em que abriu espaço para o assunto só tratou sobre depredações, confrontos, brigas e mortes dentro ou fora dos estádios. Nunca abriu espaço para o lado das torcidas, como dita a regra (básica) do bom jornalismo. Simplesmente ignorou essas entidades como fossem elas apenas gangues de salafrários. Muitas dessas instituições, é bom lembrar, possuem dezenas de milhares de associados e décadas de história. Merecem, portanto, o mínimo de respeito. Principalmente de uma imprensa que se diz imparcial.

A cobertura futebolística da Globo influenciou decisivamente na retirada da alegria e da festa colorida, pluralista e democrática das arquibancadas brasileiras. A arquibancada hoje chora tristemente sem as explosões de fogos de artifícios, os bandeirões coloridos, a diversidade de pessoas de todas as classes sociais apaixonadas por aquele ambiente. Tudo isso em nome de uma suposta segurança, de uma esterilização, elitização forçada do estádio. Aliás, estádio não, Arena. O que prolifera hoje é o torcedor de selfie, aquele que se importa menos com o jogo do que com as imagens que posta nas redes sociais. A grande maioria não tem grana para ingresso e é obrigada a acompanhar as transmissões plastificadas da Globo ou do Premiere. Dando assim retorno financeiro à rede que gasta milhões para ser a dona do futebol nacional.

Não estou retirando a responsabilidade das próprias torcidas organizadas, da CBF, federações estaduais ou clubes de futebol em tudo que envolve o desporto. Enquanto não se unirem todos os envolvidos em um diálogo franco em busca de soluções reais, o futebol brasileiro continuará no fundo do poço. Mantendo a realidade de clubes falidos, dirigentes corruptos e despreparados, além de campeonatos deficitários, violência, vandalismo e mortes de jovens. Todavia não deixa de ser triste que o torcedor, parte importantíssima do espetáculo chamado futebol, seja relegado ao último plano. À condição de simples espectador sem voz e não de participante ativo do show. É assim que a Globo quer, é assim que ela sempre quis. Porque o futebol para a Rede Globo é apenas uma fonte de lucros, nada tem a ver com amor à camisa. 

Comentários