Sobre o mundial e os "mundiais"

Corinthians, São Paulo e Internacional, os únicos clubes brasileiros campeões mundiais da FIFA.

O Santos não é bicampeão mundial, o Flamengo, o Palmeiras, o Fluminense e o Grêmio nunca foram campeões mundiais e o São Paulo tem apenas um título mundial.

Esta é a visão da FIFA sobre os campeões mundiais de clubes. A Federação Internacional de Futebol confirmou em nota enviada ao jornal "O Estado de S. Paulo" o mesmo que sempre pensou: que somente os times que venceram o Mundial de Clubes da FIFA são campeões mundiais: Corinthians (2000 e 2012), São Paulo (2005) e Internacional (2006).

Na visão da entidade não existia mundial de clubes antes dela mesmo cria-lo em 2000. A FIFA nunca considerou a Copa Intercontinental ou nenhum outro torneio como mundial de clubes.

O capitão corintiano Freddy Rincón recebe a taça do primeiro Mundial de Clubes das mãos do então presidente da FIFA, Joseph Blatter.

Esta polêmica é, antes de tudo, uma exclusividade brasileira. Afinal de contas, foram os veículos tupiniquins que consideraram torneios como a Copa Rio e a Copa Intercontinental como mundiais, não a FIFA. 

Em dezembro 2015, por exemplo, uma declaração de um porta-voz da FIFA foi alardeada como o reconhecimento de que a Copa Rio seria o primeiro mundial de clubes. Portanto, Palmeiras e Fluminense seriam os primeiro campeão mundial da história. 

Analisemos o texto da nota enviada ao jornal "O Estado de S. Paulo": "Em reunião realizada em São Paulo no dia 7 de junho de 2014, o Comitê Executivo concordou com o pedido apresentado pela CBF para reconhecer o torneio disputado em 1951 entre clubes europeus e sul-americanos como a primeira competição interclubes e o Palmeiras como seu vencedor".

Onde é que está escrito ali que a Copa Rio foi o primeiro campeonato mundial de clubes? Onde está escrito que o Palmeiras é o primeiro campeão mundial? Em lugar nenhum. 

Novamente o clubismo exacerbado da imprensa esportiva brasileira estampou nas manchetes que o alviverde teria sido reconhecido como o primeiro campeão do mundo. O que está longe de ser verdade.

'Estadão' viaja na maionese e noticia confirmação de título que não existe ao Palmeiras.

A posição da FIFA sobre o assunto nada mais é do que lógica. Nada tem a ver com clubismo ou preferência apenas pelo que ela mesma organiza. Alguns pontos descritos abaixo deixam claro o porque da interpretação correta da FIFA sobre o assunto.

Quem é a FIFA para dizer o que vale ou não?


Torcedores e mesmo alguns analistas chegam a declarar que a FIFA não é ninguém para dizer o que é válido ou não.

Oras, a FIFA foi fundada em 1904 e tinha como objetivo organizar o futebol mundialmente. Criar competições internacionais, organizar as regras e tornar a prática do esporte homogênea no mundo inteiro.

Em 113 anos de existência, a FIFA criou a Copa do Mundo e estabeleceu as bases da popularização do futebol nos quatro cantos do planeta. A Federação é a principal responsável pelo futebol ser o que ele é hoje em dia. Se a FIFA não existisse, talvez o futebol não fosse tão popular e abrangente como é nos tempos atuais. 

Portanto a Federação tem total legitimidade para dizer o que vale ou não. Discordar de sua posição não dá o direito de questionar a importância dela. 

O que significa ser campeão mundial


O mundo tem cinco continentes (África, América, Ásia, Europa e Oceania) e seis confederações continentais (AFC, CAF, CONCACAF, CONMEBOL, UEFA e OFC). 

Para qualquer competição ser denominada mundial, devem estar presentes os melhores representantes de todos os continentes na disputa. É uma questão geográfica e aritmética. 

Antigas Copas só tinham europeus e Sul-Americanos


Outro argumento utilizado por alguns para justificar que a Copa Intercontinental (disputada apenas por Europeus e Sul-Americanos) era um campeonato mundial de clubes é sustentar que as antigas Copas do Mundo, especialmente antes de 1970, possuíam apenas clubes dos dois continentes. 

Desconsideram o fato de que o Egito disputou a Copa do Mundo de 1934 ou que a Coréia do Sul disputou a Copa da Suíça em 1954 e a Coréia do Norte jogou na Inglaterra em 1966. 

Mesmo que fosse verdade em termos de seleções, não cola em relação a clubes.  Isso porque as principais copas continentais começaram poucos anos após o início da disputa da Copa Intercontinental (1960). Confira a lista:
  • Copa dos Campeões da CONCACAF (América do Norte e Caribe) desde 1962
  • Liga dos Campeões da CAF (África) desde 1964 
  • Liga dos Campeões da AFC (Ásia) desde 1967
  • Liga dos Campeões da OFC (Oceania) desde 1987
Os campeões de outros continentes, no entanto, nunca foram convidados a disputa-la, pois a porta sempre esteve fechada. A Copa Intercontinental era um "clubinho" exclusivo entre Europa e América do Sul. 

Porque a Copa Intercontinental não é mundial?


Uma competição realizada entre apenas duas confederações não tem legitimidade para ser considerada campeonato mundial. Caso contrário, teríamos de incluir no hall dos campeões mundiais outros clubes que venceram torneios exatamente iguais à Copa Intercontinental.

Copa Intercontinental, disputa exclusiva entre europeus e sul-americanos, nunca um mundial de clubes.
Entre 1986 e 1998, por exemplo, foi disputada a Copa Afro-Asiática de clubes, que reunia os campeões dos respectivos continentes. Entre 1968 e 1998 existiu a Copa Interamericana que reunia os vencedores da Libertadores e da Copa dos Campeões da Concacaf. 

Seriam os vencedores destes torneios campeões mundiais? Seguindo a lógica dos defensores da Toyota Cup, sim. Seguindo a lógica da FIFA, nem pensar.

Porque a Copa Rio não é Campeonato Mundial?


Defender que a Copa Rio, disputada em 1951 e 1952, seja considerada o primeiro mundial de clubes é digno de risos. Uma grande piada.

Afinal de contas, o Palmeiras que venceu em 1951, defrontou os campeões carioca, uruguaio, francês e iugoslavo e ainda os poderosos terceiros colocados da Áustria e Itália.

No caso do Fluminense, campeão de 1952, os representantes foram os campeões paulista, do Uruguai, Suíça e Portugal além do vice-campeão do Paraguai (!), vice da Alemanha, vice da Áustria.

Somente a falta de senso e o clubismo exacerbado podem explicar a ridícula tentativa de reconhecer estas disputas como campeonatos mundiais.

A FIFA irá mudar de ideia?


Ainda que não concorde com a forma com que a CBF unificou os títulos da Taça Brasil e Robertão como Campeonatos Brasileiros (Com base apenas em dossiê feito por um jornalista obscuro e clubista, sem levar em consideração o que os clubes pensavam), ao menos neste caso os torneios eram de abrangência nacional.

A primeira Taça Brasil, de 1959, por exemplo, teve a presença de campeões de 16 estados brasileiros, de norte a sul do país.

No caso do campeonato mundial de clubes, não há como reconhecer a Copa Intercontinental ou a Copa Rio. Primeiro por todos os pontos citados acima, segundo porque ao longo dos anos houve diversas disputas intercontinentais que poderiam também ser consideradas como mundiais. 

Caso a FIFA algum dia mude de ideia, teria de alterar completamente a lista de campeões mundiais. Confira como ficaria a relação de campeões mundiais brasileiros:

5 - São Paulo - Pequena Copa do Mundo de Clubes 1955 e 1963, Copa Intercontinental 1992 e 1993, Mundial de Clubes da FIFA 2005
3 - Corinthians - Pequena Copa do Mundo de Clubes 1953, Mundial de Clubes da FIFA 2000, Mundial de Clubes da FIFA 2012
2 - Santos - Copa Intercontinental 1962 e 1963
1 - Palmeiras - Copa Rio 1951
1 - Fluminense - Copa Rio 1952
1 - Vasco da Gama - Torneio Rivaldavia Meyer 1953
1 - Flamengo - Copa Intercontinental 1981
1 - Grêmio - Copa Intercontinental 1983
1 - Internacional - Mundial de Clubes da FIFA 2006


Meu time é campeão mundial?


No coração do torcedor o time do peito pode ser campeão até do universo. A grandeza de cada clube não reside na lista de títulos ou de vitórias. É uma grandeza impossível de medir.

O São Paulo comemora a conquista do Mundial de Clubes da FIFA, em 2005.
Não há como ser campeão de um campeonato que não existia. Somente em 2000 se organizou uma competição com todos os campeões continentais presentes.

Antes não existia campeonato mundial, portanto não existiam campeões mundiais. Mais fácil é admitir esta verdade lógica do que querer transformar vencedores de torneios sem legitimidade como os maiores do mundo.

Esta polêmica já nasceu morta e deve continuar embaixo de sete palmos no que depender da FIFA.

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