Porque o Corinthians virou exemplo para a Seleção Brasileira pós 7 a 1

(Foto: Site CBF/Divulgação - Lucas Figueiredo)

Filosofia de jogo baseada no conjunto é o diferencial da equipe mais vencedora da década. Tite levou os mesmos conceitos à Seleção

Desconsideremos a impressionante campanha do Corinthians no atual campeonato Brasileiro e voltemos a 2008, ano em que o Timão estava na Série B do Brasileirão. Mano Menezes era o técnico alvinegro naquele momento e, juntamente com a direção corintiana, iniciou um movimento no clube que solidificou uma filosofia de jogo que é utilizada até hoje. Ao invés de privilegiar a qualidade de cada atleta, buscando sempre craques e jogadores caros para cada posição, o Corinthians buscou jogadores que se encaixassem em uma filosofia de jogo que privilegia o conjunto, o coletivo.

Nestes últimos nove anos, o Corinthians se caracterizou por contratar jogadores, na maioria, desconhecidos do grande público, mas que se encaixavam perfeitamente na estratégia tática do elenco. Do time bicampeão mundial de 2012, temos Chicão (Figueirense), Paulo André (Le Mans-FRA), Ralf (Grêmio Barueri), Paulinho (Bragantino) e Jorge Henrique (Botafogo). Outros nomes, desconhecidos antes de jogarem com a camisa alvinegra, se tornaram destaques no futebol nacional após jogarem pelo Timão, casos de Felipe, Gil, Bruno Henrique, Petros, Elias, Jucilei, Romarinho, etc.

O trabalho feito no clube privilegiou a observação de equipes menores e do interior em busca de novos valores, jogadores com ambição em evoluir e conquistar títulos. Mas não bastava apenas trazer jogadores, era preciso ter um padrão tático de jogo e fazer todo o planejamento em cima disso. Desde 2008, o Corinthians joga com uma linha de quatro defensores e um volante de contenção à frente, normalmente quatro homens no meio e mais um atacante. Houve variações, os nomes algumas vezes mudaram, mas, resumindo, é assim que o time joga desde 2008.

O Corinthians é o único clube brasileiro hoje em dia que tem cultura tática, que baseia seu jogo no coletivo, não nas individualidades. Mesmo na equipe de 2009, com Ronaldo Fenômeno, os outros 10 em campo corriam para carregar o piano enquanto o "gordo" resolvia lá na frente. O espírito coletivo não deixou de existir nem nas vitórias nem nas derrotas. É este o principal mérito dos administradores do futebol corintiano, não alterar os rumos do departamento por conta de derrotas ou eliminações. Exatamente o contrário do que acontece na maioria dos outros clubes brasileiros.

Esta forma de trabalhar rendeu ao Timão a melhor década de sua história, com dois Brasileirões (2011 e 2015), uma Série B (2008), três Campeonatos Paulistas (2009-2013-2017), uma Copa do Brasil (2009), uma Copa Libertadores (2012) e um Mundial de Clubes (2012). Quando tentou fazer diferente, como em 2010, com Roberto Carlos e Ronaldo no time ou com a equivocadíssima contratação de Alexandre Pato, ficou claro que não era o caminho correto.

O grande calcanhar de Aquiles da Seleção Brasileira era exatamente a falta de jogo e mentalidade coletiva. Sempre achamos que bastava o talento nacional entrar em campo para que todas as taças estivessem ao nosso alcance. Não aprendemos com 1982, não aprendemos com 1974 ou 1978. Por essa razão, principalmente, ficamos 24 anos sem ganhar uma Copa do Mundo, mesmo possuindo grandes equipes. Em 1994, quando a seleção de Parreira levantou o Tetra, muito se ouviu falar sobre o jogo "feio" que aquela Seleção jogava, simplesmente porque não podíamos aceitar que um time de futebol do Brasil privilegiasse o jogo coletivo ao invés de um saco de dribles e individualidades.

Parreira e Zagallo entenderam exatamente o contrário, e por isso ganharam aquele mundial. Luiz Felipe Scolari, em 2002, mesmo possuindo um elenco recheado de jogadores espetaculares como Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos e Rivaldo, precisou "fechar" o elenco em um conjunto fortíssimo. Ele sabia que se não fosse assim, não venceria aquele mundial. O Brasil de Tite segue a mesma filosofia. O ex-técnico do Corinthians entende que a habilidade individual tem de estar a serviço do conjunto, e não o contrário. Uma lição que o próprio alvinegro de Pq. S. Jorge já havia mostrado em campo.

Não foi à toa que Tite levou para a Seleção Brasileira diversos profissionais que faziam parte do departamento de futebol do Timão. Claramente a intenção foi transmitir ao time nacional a mesma mentalidade de jogo já em prática no Parque S. Jorge. Direta ou indiretamente, o trabalho feito no Corinthians desde 2008 serviu como exemplo para a reconstrução da Seleção Brasileira pós 7 a 1, seja pela escolha do técnico, seja pela filosofia de jogo. A mudança de perspectiva, mesmo que ainda tímida, pode ser o diferencial para fazer com que o Brasil retome o respeito das outras seleções do mundo.

Outros clubes do futebol nacional ainda não perceberam que o caminho para ter um time sólido é a continuidade, algo que o Timão vem fazendo e com sucesso. Demissão de treinadores com pouco tempo de trabalho, excesso de contratações sem critério e mudanças muito grandes no elenco de uma temporada para outra, são os principais motivos pelos quais equipes grandes tem tido dificuldades para retomar o caminho dos títulos. Não que o Corinthians seja um clube de gestão perfeita, longe disso. O alvinegro enfrenta tantas dificuldades como outras agremiações. No aspecto técnico, de estratégia do departamento de futebol, no entanto, o Corinthians é um exemplo a ser seguido.

Comentários