Uma Seleção sem alma

(Foto: Tumblr)
Campanha na Copa do Mundo 2018 demonstra que a Seleção Brasileira ainda não se reencontrou após o vexatório 7 a 1. 

A eliminação do Brasil contra a Bélgica completou um diagnóstico construído desde o fraco empate ante a Suíça, a estreia de gosto amargo da Copa do Mundo 2018. Em nenhuma partida o Brasil de Tite entregou o que os brasileiros esperavam. Cinco jogos de  uma seleção sem alma, sem líder, sem sangue correndo nas veias. Os resultados não foram nenhum absurdo, o que incomodou foi a postura.

Na quarta de final, a Seleção Brasileira só resolveu jogar com iniciativa, partir para dentro da Bélgica depois de já estar perdendo por 2-0.  Durante o primeiro tempo, o Brasil  observou a troca de passes dos belgas, só faltou pedir licença para atacar. Nem parecia o time cinco vezes campeão mundial, a equipe onde atuaram craques como Pelé, Garrincha, Rivelino, Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho.

Por favor, não me venham com estatística porque isso aqui é futebol e não matemática. O goleiro dos caras só sujou o uniforme umas três ou quatro vezes. 

A Seleção Brasileira da Copa de 2018 ficará na minha memória como um time sem alma. Distante da sina campeã que a camisa amarela carrega. Uma equipe sopa sem sal, beijo na bochecha da mãe. Bem melhor que o catadão de Scolari e Parreira em 2014, mas ainda longe do que o futebol brasileiro merece.

Tite ensaboado por um banho tático humilhante

O técnico dos Diabos Vermelhos, Roberto Martínez, aplicou um verdadeiro banho tático na Seleção Brasileira. Ao posicionar Hazard e Lukaku pelas pontas e Kevin De Bruyne como um "falso 9", pelo meio, arrebentou a linha de 4 da defesa brasileira. 

Tite dormiu de calça jeans e ficou sem reação. Ele esperava uma Bélgica mais comedida, com Lukaku pelo meio brigando pelo espaço entre os zagueiros. Ao notar a arapuca belga, percebeu que a chapa havia esquentado. Sem Casemiro, o melhor marcador pelo meio, tentou com que Fernandinho e Paulinho ajudassem na cobertura de Fagner e Marcelo, sobrecarregando a criação do meio brasileiro.

A entrada de Renato Augusto foi um peido n'água, ficou no quase.

Ironia do destino, o técnico celebrado por aqui como a maior novidade tática do futebol brasileiro nos últimos anos e que chegou à Seleção Brasileira com todos os méritos, tomou uma chapuletada de um quase desconhecido treinador espanhol. 

Reflexos profundos do 7 a 1

Uma derrota como o "Maracanazzo" pode levar anos, décadas para ser superada. Os 7 a 1 que levamos da Alemanha teve como resultado, ainda que bem diluído, um pouco da frustração pela trágica final da Copa de 1950. A derrota para o Uruguai no Maracanã, na minha opinião, ainda é a maior derrota esportiva da história do Brasil, e as lágrimas daquele fatídico 16 de julho de 1950 ainda percorrem o rosto dos brasileiros.

Vendo a Seleção Brasileira jogar nos campos russos na Copa atual, principalmente na partida ante a Bélgica, sentia-se um receio obscuro, um temor escondido, a lembrança daquela partida no Mineirão, os gols alemães saindo um após o outro ante um Brasil impotente, perdido, patético. Querendo ou não, os jogadores incorporaram um pouquinho disso. Talvez isso explique um pouco a passividade do primeiro tempo ante os belgas.

Na falta de líderes, rodízio de capitães

Nunca me agradou a prática do rodízio de capitães, independente do time. Em uma seleção nacional, pior ainda. Líderes certamente não brotam do chão, eles aparecem naturalmente. Mas, certamente tem de estar entre aqueles com maior experiência e influência sobre a maioria do grupo de trabalho. Fazer rodízio de faixa de capitão não é distribuir responsabilidade ou liderança. É fazer circo para inglês ver. 

O líder é aquele que mais sofre com as derrotas, o primeiro a assumir responsabilidades, o primeiro a consolar os companheiros que erraram e a levantar o moral do time quando a situação está difícil. Não vi isso em nenhum jogo da seleção nesta Copa do Mundo. O que vi foi muito blá blá blá sobre o elenco ter vários líderes. Mas na hora que a cobra belga acendeu o charuto e começou a fumar, todo mundo se escondeu.

Neymar, mais destaque fora que dentro de campo

Esta não foi a última Copa do Mundo de Neymar. Com 26 anos, o craque do Paris Saint Germain ainda poderá disputar os dois próximos mundiais se estiver jogando bola para isso. Acontece que a Copa da Rússia se apresentou a Neymar como uma grande chance de demonstrar-se no auge da forma física, técnica e psicológica. O resultado, porém, foi uma grande decepção.

Ganhou muito mais destaque por polêmicas do que por gols. A cada partida um novo penteado desenhado milimetricamente, muita reclamação, catimba, chororô e pouca, pouquíssima bola. Nem o fã mais ardoroso do  camisa 10 da Seleção Brasileira será capaz de dizer que a bola que Neymar jogou condiz com a fama do avançado do PSG. 

E olhe que sou um grande fã do jogador. Acho-o um grande talento do futebol mundial. Mas sempre disse e repito: enquanto colocar outras prioridades à frente do futebol, nunca será o melhor jogador do mundo. Copa do Mundo não se ganha com penteado da moda, chuteira colorida, selfies e declarações cheias de vaidade nas redes sociais ou tatuagens estilosas. Copa do Mundo se ganha entregando a alma, sangrando, saindo de campo cheio de hematomas, com câimbras, esgotado fisicamente. 

Falta a Neymar o que sobrava a Ronaldo, por exemplo: A capacidade de lutar contra tudo e contra todos, de fazer da superação o motor da vitória.

Gabriel Jesus, o grande erro

Desde a primeira partida do Brasil na Copa do Mundo da Rússia, uma coisa ficou clara: Gabriel Jesus não estava preparado para envergar a camisa 9. Não estava pronto para ser o atacante de referência da Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo. Talvez o esquema não fosse favorável, as orientações táticas não fossem as mais adequadas, mas uma coisa é certa: o menino Jesus sentiu o peso da responsa. 

Não pretendo avaliar a qualidade do atacante do Manchester City, ex-Palmeiras. Técnica e faro de gol ele tem de sobra, mas falta-lhe experiência, preparo mental, falta algo mais. Quem viu Jesus nesta Copa mal pode acreditar que é o mesmo jogador que, atualmente, é um dos melhores atacantes jovens do mundo. Tímido, perdido entre as zagas adversárias, sem iniciativa, com pouca movimentação. 

Roberto Firmino, apesar de ser um jogador menos técnico que Jesus, demonstrou que estava em um melhor momento em todas as partidas em que entrou. Mesmo assim, Tite manteve Gabriel em campo.

A Europeização forçada da Seleção

Nas últimas Copas em que a Seleção Brasileira conquistou o título, a mescla entre jogadores que atuavam no Brasil e os "europeus" era muito mais dividida. Em 1994, o elenco dirigido por Carlos Alberto Parreira contava com onze atletas que estavam no futebol brasileiro. Em 2002, eram treze. Os convocados de Tite contemplavam apenas três jogadores atuando no Brasil: Cássio e Fagner do Corinthians e Geromel do Grêmio.

Considero este ítem importante na medida em que o atleta que atua no Brasil sente a cobrança da torcida muito mais de perto e entende muito melhor o ambiente do país para cada Copa do Mundo. O "europeu", ainda que seja brasileiro, vive outra realidade, praticamente em outro mundo. Sendo mais direto, é mais fácil conviver com o fracasso quando não se tem de pegar um avião de volta ao Brasil e encarar a decepção e a cobrança da torcida cara a cara. 

Discordo daqueles que defendem que não há qualidade no futebol brasileiro atual. Qualidade há, mesmo perdendo os melhores para times de fora. Há que se ter coragem de executar uma linha de trabalho diferente, deixando de lado alguns dos milionários e celebridades da bola em busca daqueles que darão sangue, suor e lágrimas para defender a camisa amarelinha. Quem sabe até para se destacar e assinar um contrataço com um Barcelona da vida. 

Levantar, recolher os cacos e se reconstruir para 2022

Nunca torci contra a Seleção Brasileira. Pouco me importam os desmandos da CBF, as mazelas políticas e sociais do país quando o assunto é Copa do Mundo. Futebol é esporte e assim deve ser encarado. Misturar coisas diferentes não faz bem. Continuarei sendo um ardoroso torcedor do Brasil, do meu país, onde quer que ele dispute alguma coisa. No futebol, ainda mais.

Entendo, porém, que é preciso uma mudança de mentalidade ainda mais forte. A Copa do Mundo de 2018, ainda que timidamente, ajudou a resgatar um pouco da tradição e do respeito à camisa canarinho. Mas ainda é preciso mais. É preciso que os adversários voltem a nos temer. Que voltem a saber que temos um time que pode tirar da cartola um lance mágico a qualquer momento e destruir as defesas adversárias. 

Este time que Tite levou à Copa do Mundo, de futebol burocrático, excesso de passes laterais, excesso de jogadas afuniladas pelo meio, sem iniciativa, com pouquíssima criatividade, não bota medo em ninguém. 

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