Caso Sidão é mais um a revelar a escrotice da cobertura futebolística brasileira

Divulgação - Twitter CR Vasco da Gama
Goleiro do Vasco sofre humilhação covarde em rede nacional, fruto de um jornalismo esportivo que vive de superficialidade e pobreza de conteúdo

A derrota ante o Santos no Pacaembu, na tarde do último domingo não foi a única infelicidade do goleiro vascaíno Sidão. A derrota por 3-0 não foi culpa exclusivamente dele, apesar de uma falha bisonha no lance do primeiro gol santista. Mas a votação do "Craque da Partida", feita pela internet durante a transmissão ao vivo da partida o escolheu como o melhor do jogo. O constrangimento na entrega do troféu foi enorme e a Rede Globo recebeu uma enxurrada de críticas por ter "humilhado" o atleta. O episódio é apenas mais um que revela que a cobertura futebolística brasileira precisa mudar urgentemente.

Sidney Aparecido Ramos da Silva é profissional de futebol há cerca de 18 anos. Com 36 anos de idade, começou a base do Corinthians e passou por grandes clubes como São Paulo, Botafogo, Goiás e agora o Vasco da Gama. Ele foi tremendamente desrespeitado neste episódio, o que demonstra que mesmo sendo a emissora que "monopoliza" o futebol há quase quatro décadas, a Rede Globo ainda não aprendeu a respeitar clubes e os profissionais que vivem e fazem do futebol o esporte mais importante do país. E, talvez por essa razão, a emissora carioca seja uma das principais culpadas pelo estado famigerado pelo qual passam muitos clubes de enorme tradição no nosso país.

Não sou anti-Globo e nem acredito que não haja gente muito boa dentro da Globo, pelo contrário. O que acontece é um fenômeno que extrapola o futebol e está cada vez mais presente na sociedade brasileira. Como brasileiros, temos o hábito de não respeitar quem é profissional, quem entende do assunto, quem dedicou a vida a se desenvolver naquele ramo de atividade. Temos o péssimo hábito de querer dar opinião em tudo e não sabemos nos reservar à nossa ignorância. Isso não significa ficar calado ou não poder dar opinião. Mas sim entender que a nossa opinião não é (e não pode ser) mais válida do que aquela proferida por alguém que realmente entende, estuda e vivencia o assunto. 

Nos últimos anos, dada a balbúrdia midiática, eleitoral, política, econômica e educacional pelo qual passa nosso Brasil, este hábito se tornou cada vez mais detestável. A ponto de que qualquer idiota se sentir no direito de achar que as próprias colocações são a última bolacha do pacote e todo mundo deveria parar para ouvir e bater palmas. Tudo isso potencializado pelo poder hipnotizante das redes sociais. O futebol obviamente não poderia ficar de fora. O maior exemplo disso é a quantidade de torcedores travestidos de analistas nas mesas redondas televisivas (quanta criatividade!) onde 90% do que é discutido são temas banais e a análise é quase sempre rasteira. 

Cobertura futebolística que, salvo raras exceções, pauta os julgamentos apenas pelo resultado dos jogos e dos campeonatos. Segundo lugar não vale nada, jogar bem não vale nada, uma boa campanha não vale nada quando não se é campeão. E ainda dizem que a culpa disso é do torcedor. Que é da cultura do brasileiro ser assim. Em parte isso é verdade, mas quando se entrega uma cobertura neste nível "ratoeiro", o que mais poderia se esperar da audiência? Quando se despreza o fato de que se está lidando com profissionais que abandonaram a família cedo, que passam décadas viajando, treinando duro e que abdicaram de boa parte da juventude em busca de um sonho. O ser humano, a reputação e a carreira de um profissional passam a não ter valor algum. Só importam as vitórias e títulos.

Sidão é só mais uma vítima desta perversa realidade. Poucos realmente se importam com o que ele sente, com o que a família dele sente. Poucos irão se arrepender (de verdade) pelo que fizeram. Porque, no fim das contas, só importa a audiência, a próxima rodada, a escalação do Cartola FC, o próximo de quem irão caçoar por ter errado algum lance. Sidão é só mais um jogador. Se ele sair do Vasco, outro irá substituí-lo prontamente. Porque o clube é maior que tudo e todos, e o futebol não pode parar. Mesmo que para isso reputações, vidas e corações sejam esmagados em nome de pontos na audiência, curtidas ou compartilhamentos nas rede sociais. Que pena que chegamos a esse patamar de escrotice no jornalismo esportivo, na sociedade e no Brasil. É triste, é deprimente. 

Bons tempos aqueles em que os jornalistas conseguiam captar a realidade caótica da arquibancada sem deixar de lado o respeito aos profissionais e seres humanos ao levar conteúdo para as páginas da mídia esportiva. Hoje em dia, sem meias palavras, é tudo a mesma merda. Confunde-se zoeira com cobertura, análise com mesa de boteco, jornalista com babaca. A você, Sidão, meu mais profundo respeito. Você teve uma partida infeliz, nada mais que isso. Você lutou muito para chegar onde chegou e desejo sorte em qualquer lugar onde esteja e na sua vida. Não te escolhi o craque da rodada, não votei nessa pataquada, mas peço desculpas como jornalista. Porque estou com vergonha do que alguns que se intitulam jornalistas te fizeram passar. Você não merecia essa humilhação. 

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