Árbitro de vídeo no futebol brasileiro não torna jogo mais justo, só aumenta polêmicas e transfere responsabilidades.
Quando o árbitro de vídeo foi anunciado pela FIFA, houve estados de excitação incontroláveis nos defensores da "justiça no futebol". Os engomadinhos de bunda quadrada, que assistem futebol no conforto do sofá ou no camarote com ar condicionado, que nunca foram a um jogo de várzea mas tem total conhecimento sobre as ligas de plástico da Europa ou sobre as novidades nos jogos de PES ou de FIFA Soccer. Obsessivos em acabar com os erros de arbitragem, os famosos jogadores de condomínio festejaram a plenos pulmões a instituição da nova tecnologia, finalmente acabariam as polêmicas mais graves e os erros crassos da juizada mundo afora. Hoje, no entanto, se calam ao perceber que o árbitro de vídeo nada mais é que o "Ouro de Tolo" do futebol brasileiro. Prometeu muito e entrega mais do mesmo.
Na semana passada, dois assaltos dignos da quadrilha de Al Capone deixaram o Athletico Paranaense e o Vasco com as calças na mão. Quarta-feira, aos 10 minutos do primeiro tempo na primeira partida das quartas de final da Copa do Brasil, o goleiro do Flamengo, Diego Alves, claramente meteu a mão na bola pelo menos um metro e meio fora da área, em jogada de contra ataque do Athletico Paranaense. Um lance claro de perigo de gol, lance cristalino de expulsão. Caso fosse cumprida a regra, o Flamengo ficaria com um a menos, na casa do adversário e com 80 minutos de jogo pela frente. Em uma partida de mata-mata isso faz uma enorme diferença. Mas o tal do VAR nem sequer revisou o lance. No fim das contas, o empate em 1-1 deixou o Flamengo lindão na fita. Joga a volta no Rio de Janeiro e tem tudo para se classificar. Graças a Anderson Daronco e os trapalhões da sala de vídeo.
No último sábado, o Vasco da Gama foi literalmente garfado pelo VAR. O cruzmaltino vencia o jogo ante o Grêmio por 1-0 em Porto Alegre, quando a 1 minuto do segundo tempo, Yago Pikachu fez um gol em bela jogada, ampliando o placar para 2-0. Um resultado espetacular para um time que briga contra o rebaixamento. Nem bem os jogadores vascaínos terminaram de comemorar, já houve cochichos na orelha do juiz, Rodolfo Toski Marques que, revendo a jogada, anulou o gol por conta de uma falta inexistente. Nenhum jogador do Grêmio reclamou da falta, a torcida do Grêmio não viu a falta, Renato Gaúcho e o banco de reservas do Grêmio sequer esboçaram qualquer contrariedade, nem o próprio jogador que supostamente sofreu a infração reclamou. Mas os trapalhões do VAR tiraram o tento do Vasco mesmo assim. O Grêmio cresceu na partida e acabou virando o jogo, para desgosto de Vanderlei Luxemburgo.
Por mais que alguns sejam enganados pela ilusão de que artifícios como o árbitro de vídeo podem exterminar os erros, as lambanças e a ruindade dos árbitros do Brasil, o fato é que VAR não vai mudar o futebol brasileiro. No máximo vai mudar o endereço da choradeira. As polêmicas não irão acabar, os erros, menos ainda. O futebol é um esporte em que grande parte das infrações são interpretativas e isso faz parte da grande beleza deste esporte. São as polêmicas da segunda-feira na discussão do almoço, na mesa de bar, no trabalho que fazem o futebol ser o que ele é. Há muitos que não entendem isso e querem um jogo pasteurizado, moderno, cheio de robôs apitando a cada centímetro percorrido pela bola. Por mais que tentem, nunca conseguirão colocar o jogo de pelada numa redoma de cristal, imune aos atos falíveis daqueles que fazem do esporte bretão o mais popular do mundo, os seres humanos.


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