Para o torcedor de alma é preferível vencer a jogar bonito

Jogo bonito é um conceito interpretativo e subjetivo. No futebol concreto, real, a vitória é a mais bela das belezas.


Jogar bonito e vencer é a utopia do futebol. Combinar a beleza plástica do drible, das fintas, tabelas milimétricas e  pinturas em forma de gol a vitórias, glórias e títulos é o que qualquer amante do esporte bretão.  No entanto o resultado é sobrevivência, especialmente em grandes clubes. A demissão de Fernando Diniz foi vista como um momento triste, de derrota do futebol arte, ofensivo, corajoso. Não vejo nada disso. O futebol sempre terá os técnicos retranqueiros e aqueles que gostam de imprimir em seus times uma filosofia mais ofensiva. Diniz vai seguir o seu caminho e o Fluminense vai continuar grande. Quem sabe um dia até ele volte.

A questão em pauta aqui é o futebol bonito. Como diz o velho ditado, a beleza está nos olhos de quem vê. Então dizer que um time joga futebol bonito ou não está mais ligado a perspectivas pessoais, construção de um retrato íntimo de futebol bem jogado do que a uma análise ligada a dados e estatísticas. É algo subjetivo e interpretativo. É bonito um time que faz muitos gols ou um time que troca passes com precisão? Bonito é um time que não abandona o jogo ofensivo ou aquele que se comporta de acordo com a necessidade (jogando "feio" quando precisa)?

Cobrar que um time jogue futebol plástico deve vir depois que já existe um time formado. E um time demora um bom tempo para se formar. O imediatismo do brasileiro, no entanto, quer que times em formação demonstrem um jogo mais articulado do que conseguem. Como temos neste país o hábito de não analisar as coisas como devem ser analisadas, profissionais são chamados de incompetentes, incapazes e burros em ataques de verborragia gratuitos de comentaristas e torcedores.

Colocar para um técnico brasileiro parâmetros de futebol europeu além de ser de uma ignorância monumental é demonstração de falta de conhecimento do jogo. Será mesmo que Guardiola demonstraria todo o seu excelente trabalho se fosse treinador de uma Chapecoense, um Sampaio Correa ou uma Portuguesa de Desportos? A filosofia do espanhol resistiria a todas as interpéries do futebol nacional? Acho pouco provável. Mas isso não tira de forma alguma os méritos de Pep.

Admiro muito mais os técnicos brasileiros, que conseguem sobreviver em um ambiente de canibalismo empregatício selvagem. Poucos recursos, pouca estrutura, pouco tempo e obrigatoriedade de vitórias para ontem. Essa é a nossa realidade. Fernando Diniz até que durou muito sem ganhar nada. Assim como outros técnicos, atletas e times brasileiros, ele foi e é vítima de análises pouco embasadas e cobranças sem fundamento. Fez o melhor que pode e, talvez, pudesse fazer muito mais se tivesse mais tempo e recursos.

Não avalio a demissão dele como injusta ou errada. No futebol, a exigência por vitórias e títulos é grande e isso serve de lição para o ex-Fluminense. Um trabalho nos moldes que Diniz pretende exige tempo e para ter tempo em um clube grande, de torcida exigente, é preciso contar um pouco com a sorte de ter bons resultados. Como dizia minha avó, beleza não se põe à mesa. Não adianta jogar aquele futebol cheio de tiroliroli se não vence. Para o torcedor de alma, muitas vezes basta a vitória. Que seja com gol impedido, pênalti inexistente ou jogando aquela bola murchinha.

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