O grande desafio de Thiago Nunes no Corinthians não é ser campeão


Conquistar a confiança da torcida para implantar mudanças necessárias é o maior desafio do técnico 


Mudanças sempre causam incômodo. Sair da zona de conforto, alterar hábitos consolidados ou práticas rotineiras costuma mexer com a tranquilidade da maioria das pessoas. No Corinthians não é diferente. Em um clube acostumado a ser campeão nos últimos anos, Thiago Nunes precisará amadurecer as mudanças de filosofia que trouxe ao Pq. S. Jorge,  e isso não será nada fácil em um clube que decepcionou no ano  passado mas está muito identificado com uma filosofia de jogo bem diferente. Driblar as pressões, não perder o foco do objetivo e contar com a sorte de ter bons resultados são os grandes desafios do técnico no Timão.

No futebol, o resultado é consequência de um bom trabalho. Nenhum clube vence campeonatos sem um bom planejamento, mínima estrutura, gestão adequada de grupo, e adaptação a um calendário às vezes sacrificante. Obviamente que exceções existiram ao longo da história, mas são exceções. No futebol moderno, quem não se organiza, se trumbica. Apesar disso, o campeão só pode ser um, o que significa que bons trabalhos podem não vencer. No Brasil, essa é uma lição difícil de ser aprendida. Aqui, o resultado valida tudo. 

Thiago Nunes está no clube mais vencedor do país neste século. E em todas as conquistas recentes, excetuando o Brasileirão 2015, a filosofia de jogo adotada pelo Corinthians tinha foco no pragmatismo tático, defensivo, regulamento embaixo do braço. Sem craques, mas com grande força coletiva. As famosas goleadas por 1 a 0, os preciosos empates, os jogos sem gols que geraram pontos preciosos. O Corinthians não jogava bonito, mas ganhava. Só que esta fórmula se esgotou. Hoje, a realidade é outra. O futebol brasileiro busca o jogo mais plástico, jogado, ofensivo. E o Corinthians fez bem em mudar.

É fundamental conquistar a confiança da torcida, que apoia incondicionalmente durante os 90 minutos mas cobra com a mesma intensidade quando as coisas não vão bem. Os últimos anos tem mostrado que o corintiano é mais paciente, até pela quantidade de títulos recentes, mas isso tem limite. O futebol jogado hoje, mesmo em início de trabalho, já é infinitamente melhor do que o time medroso, acuado e covarde de Fábio Carille, durante o Brasileirão do ano passado. Um time que finalizava pouco, quase não fazia gols e se classificou para a Libertadores quase que por sorte.

A história do Corinthians mostra que o clube tem sim uma tradição de equipes extremamente técnicas, recheadas de craques e com conquistas. A mais recente delas, bicampeã brasileira 1998/99 e campeã do mundial FIFA 2000. Com craques como Gamarra, Marcelinho Carioca, Luizão, Edílson, Vampeta e Ricardinho. Ao longo de sua vida, o clube teve equipes memoráveis como o supertime do início dos anos 1950 ou o grande Corinthians bicampeão paulista 1982/83, com nomes como Wladimir, Zenon, Sócrates e Casagrande. A Era Mano/Tite/Carille trouxe para a geração mais nova um conceito errado de que o Timão tem uma identidade pragmática e defensiva.

O alvinegro de Pq. São Jorge não é só uma coisa nem só outra. É sim um time aguerrido, raçudo e brigador, e isso o torcedor cobra de qualquer um que veste a camisa alvinegra. Só que chegou o momento de mudar o jeito de jogar para não ficar para trás. Para o bem do clube, o trabalho de Thiago Nunes precisa continuar, uma volta ao passado fará mal ao clube. Ainda é cedo para fazer avaliações, e quem se arrisca a isso demonstra que de futebol entende pouco ou é simplesmente oportunista. Permanecendo ou não com o técnico, o Corinthians precisa entender que a mudança de filosofia não pode parar, caso contrário ficará para trás no bonde da história. Sem taças, sem glórias e sem identidade.

Foto do post: Daniel Augusto Jr. / Agência Corinthians.

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