Futebol não voltará a ser privilégio das elites, por enquanto
No último dia 18 doze clubes europeus anunciaram a criação da chamada Superliga de futebol. Real Madrid, Atlético de Madrid e Barcelona da Espanha; Manchester United, Manchester City, Liverpool, Chelsea, Tottenham e Arsenal da Inglaterra e os italianos Milan, Internazionale e Juventus se uniram para divulgar a ideia. Há ainda outros três clubes que permaneceram em segredo. A Superliga juntaria os 15 fundadores e mais cinco convidados em campeonato sem rebaixamento. Não passou uma semana e a união em torno da proposta desmoronou. A FIFA, as confederações continentais, clubes, jogadores, torcedores e imprensa esportiva malharam o sarrafo sem dó no campeonato sem pé nem cabeça. Além da ruptura institucional e comercial, a Superliga faria o futebol regredir mais de um século, devolvendo o esporte bretão às mãos da elite.
Caso vingue algum dia, a Superliga causaria um verdadeiro caos nas estruturas do futebol. As ligas nacionais perderiam importância, relevância e dinheiro A Champions League seria praticamente destruída com a saída de alguns dos maiores campeões. Clubes menores e tradicionais poderiam, daqui a alguns anos, estar mendigando por dinheiro para sobreviver. Enquanto isso, os 15 bonitões arrotariam notas de dinheiro sem a menor vergonha. Esta situação não é nova, no inicio do futebol moderno, apenas os colégios da elite britânica jogavam futebol. Os primeiros campeonatos foram disputados por cavalheiros ostentando calças e bandanas na cabeça para não sujar os cabelos bem cuidados. Não havia pobres. Negros então, nem pensar. Acontece que o futebol caiu no gosto popular e se tornou um fenômeno de inclusão social nos quatro cantos do mundo.
Talvez por isso, muitos torcedores, jogadores e jornalistas ficaram tão indignados com a proposta do super clubinho europeu. Afinal, só estão pensando no dinheiro. Maiores contratos, maiores patrocínios, maior distância entre os gigantes e os outros times. Os defensores da proposta naufragada chegaram a dizer, na maior cara de pau, que a Superliga seria a salvação do futebol. Me parece que a única coisa que precisa de salvação é a ganância dos empresários bilionários que compraram a maioria dos times envolvidos nessa pataquada. Querem é minimizar o risco dos investimentos, eliminando do futebol o mérito esportivo e garantindo gordos orçamentos com presença vitalícia no que seria a maior competição de clubes do mundo. Não há dúvida que os jovens tem muito menos interesse por futebol, mas segregar o esporte desta forma agressiva é a saída para isso? Na minha visão, seria dar um passo para trás.
Numa sociedade de tantas distrações tecnológicas, não será fácil atrair os jovens ao futebol. Mas a inclusão poderia funcionar mais que a exclusão. Por que não começar pelas escolas, criando ações em conjunto para atrair as crianças e jovens ao redor do mundo? Por que não baratear preços de ingressos ou criar setores com promoções especiais para permitir aos jovens ir ao estádio com mais frequência? Por que não modernizar a presença dos clubes nas redes sociais construindo soluções inclusivas e interativas? A Superliga não vai salvar o futebol e não vai reverter a falta de interesse dos jovens pelo futebol. Caso se torne realidade algum dia, ela vai criar um abismo que pode causar sequelas irrecuperáveis no futebol mundial. Entendo que a estrutura de FIFA, confederações continentais e federações nacionais precisa de alterações para dar mais voz aos clubes, mas a solução apresentada pela Superliga certamente não é uma boa saída, muito menos a salvação do futebol.

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